“Hoje a cidade acordou
toda em contramão, homens, buzinas, sirenes, estardalhaços…”
Desde a greve dos motoristas de
ônibus na semana passada, em Goiânia, vivemos um momento atípico. Uma manobra
mal sucedida das empresas na última quinta feira, 2 de maio, de impedir a
greve e fazer os usuários do transporte pagarem a passagem mesmo com o indicativo
de paralisação, criou uma situação de caos no sistema de transporte da cidade.
Milhares de usuários ficaram presos em terminais de ônibus, sem poderem voltar
para casa nem sair ao trabalho, sujeitos às arbitrariedades da segurança armada
contratada pelas empresas.
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Nesse contexto, aconteceram vários protestos “espontâneos” contra a situação do transporte. No Terminal da Bíblia, passageiros invadiram a pista da principal linha da cidade, o Eixo Anhanguera, e vários ônibus foram depredados. Em pelo menos um terminal uma manifestação quebrou as máquinas de sitpass [*] e uma catraca. Com um fim de greve insatisfatório para os motoristas e que atiçou os usuários do transporte coletivo contra as empresas, até os principais meios de comunicação da cidade já estão praticamente fazendo campanha contra o provável aumento da passagem.
É muito comum ocorrer uma oposição entre motoristas e
usuários — “Se eles ganharem mais, nossa passagem aumenta”; “se a passagem
deles não aumentar, meu salário não aumenta.”. Nesta oposição reducionista
pouco se sabe e pouco se discute sobre as relações do transporte público, que
no final giram em torno de um objetivo: gerar lucros para as empresas que
monopolizam este “comércio”. Diante da falta de transparência do transporte
público em Goiânia, se justificam ambas as arbitrariedades: a com o usuário e
com o trabalhador do transporte.
A segunda surpresa foi ver um ato simbólico se transformando
em combustível nos ânimos dos manifestantes. Logo no início da manifestação,
quando paramos no cruzamento da Avenida Goiás com a Avenida Anhanguera, os
manifestantes queimaram pneus no meio do cruzamento e anunciaram que iam
bloquear a via até que a nossa reivindicação imediata fosse concedida: a
presença de um representante da Companhia Metropolitana do Transporte Coletivo
(CMTC) para receber as nossas reivindicações. Com esse pontapé inicial, as
pessoas se encarregaram de bloquear a rua, conversar com os transeuntes, manter
a fogueira acesa no meio da avenida e organizar uns rudimentos de autodefesa e
solidariedade. O microfone aberto, apesar de algumas confusões, também permitiu
uma maior discussão dos temas, a manifestação de pessoas na rua apoiando o
nosso movimento, e permitiu também que a fala não ficasse totalmente focada na
“organização”, fazendo com que de fato a manifestação tivesse uma voz própria.
A chama acendeu os ânimos das pessoas que ali passavam junto
com os que protestavam e de modo distinto da polícia que vigiava o protesto.
Depois de uma prisão por conta de uma confusão causada pelos bombeiros, a
polícia comum foi escorraçada para longe da manifestação. Tropas de choque e a
cavalaria foram mandadas para as proximidades. Não nos intimidamos. Nem a
polícia nem os gestores do transporte sabiam o que fazer, porque foram
surpreendidos pela nossa demanda. Ao invés de irmos ao espaço da Companhia para
discutir com eles, forçávamos os gestores públicos do transporte a vir discutir
conosco no nosso terreno, na rua. Eles não queriam aceitar, mas também não
podiam recusar, com o risco de parecerem pouco razoáveis, indispostos a um
diálogo que nós, manifestantes, estávamos iniciando.
A quarta surpresa foi
mostrar a que viemos durante esta manifestação. Gritaríamos palavras de ordem,
queimaríamos pneus, fecharíamos o trânsito. Mas, além da expressar revolta e
indignação, não sairíamos do local até que a nossa demanda da presença de um
representante do sistema de gestão do transporte coletivo fosse atendida. A
demanda clara e cristalina unificou os manifestantes em torno de um objetivo,
facilitou a compreensão do público de porque estávamos ali e até permitiu que a
Polícia Militar (PM) viesse a se dobrar diante das nossas reinvindicações.
Exigimos que a PM intermediasse o contato com a CMTC e fizesse com que o
representante aparecesse para que a situação fosse resolvida. Inicialmente,
diante da queima de pneus, a primeira resposta dos policiais foi a de que a
repressão era inevitável e que a gente ia apanhar. Ao verem que a gente não ia
sair de lá e que tínhamos uma demanda bastante clara, resolveram dialogar. Quem
conhece a tradição da PM goiana de bater antes e perguntar depois vai perceber
o ineditismo da situação.
A demora de chegar algum representante da Companhia, sendo
estratégia ou não para dispersar o movimento, não surtiu efeito. A demora do
tal representante que viria receber o documento não desanimou os manifestantes,
pelo contrário, o tempo que ficamos ali serviu de muita conversa entre os
manifestantes e com quem passava e queria saber “o que estava acontecendo”. Ao
saber, apoiavam. Um grupo de pessoas paradas na calçada e moradores da região
inclusive iniciou um abaixo-assinado na hora para demonstrar apoio à nossa
reivindicação. A imprensa, toda no local, também procurava saber. Ao verem o
apoio da população, a imprensa e a nossa disposição para resistir, a própria
polícia resolveu jogar a responsabilidade de qualquer repressão em cima da
Companhia: só haveria repressão se o órgão gestor do transporte se recusasse a
dialogar com os manifestantes. Em determinado momento, enviaram alguém da CMTC
que disseram que não veio por ter ficado com medo da manifestação; alguns
diziam ser uma estagiária que a própria polícia dispensou, mas o que importa é
que nenhum representante da CMTC estava lá para pegar o documento. Novamente,
mostramos que de lá não sairíamos.
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Por volta de meio-dia, depois de 3 horas fechando a rua, de inúmeros rumores de que o choque e a cavalaria estavam descendo, finalmente entenderam que a gente não ia sair. A diretora técnica da CMTC chegou ao local para receber o documento. A fala da diretora, recebida com vaias, foi finalizada dizendo que ela ia encaminhar a carta aos espaços competentes solicitando os manifestantes a “voltarem para as aulas e pararem de atrapalhar o trânsito”.
O ato, com a sensação de um primeiro passo dado e uma
pequena vitória conquistada, acabou ali, naquela fala em que alguém de um órgão
do transporte pedia para que usuários voltassem às aulas e não atrapalhassem o
trânsito. O que é um absurdo vindo de um gestor do transporte público, que
deveria saber quem realmente impede milhares de usuários de irem para a aula,
de irem para o trabalho, de irem tomar a cerveja naquele bar longe de casa, de
irem ao cinema ou ao posto de saúde levar o filho. Com um pouco de honestidade,
se não pudéssemos responder estas questões, ao menos entenderíamos que não eram
os manifestantes os que deveriam voltar para suas aulas ou para o trabalho. E
ainda mais, entenderíamos que, antes de repudiarem o fato de que, sim,
atrapalhamos o trânsito por uma manhã no centro, é preciso refletir sobre quem
de fato tem suas vidas cotidianas atrapalhadas pelo modo como o transporte
coletivo se estrutura na cidade. Depois, nos jornais, as empresas do transporte
responderam à nossa manifestação falando que “nem sequer se discutiu aumento”,
o que, além de ser uma declaração mentirosa, demonstra que eles foram pegos
despreparados pela nossa inciativa. Também não entenderam.
Os usuários e trabalhadores do transporte, em sua maioria,
no entanto, entenderam muito bem o recado e os manifestantes saíram do ato com
o sentimento de que logo mais os empresários e gestores públicos do transporte
coletivo iam entender que nós não vamos aceitar mais. Que a cidade é de quem
vive nela, de quem anda nela, não de quem lucra com ela. E que para mostrar
isso nós tínhamos a capacidade de dobrar polícia, órgão público e a empresa que
fosse. Mostramos. Agora que a coisa saiu do roteiro para todo mundo, usuários e
empresas, o caminho está aberto. Depende de mantermos a iniciativa e a
criatividade do movimento e continuar surpreendendo e criando alternativas de
luta e organização. Convocamos outra manifestação para o dia 16, às 7:30 da
manhã na frente do Colégio Lyceu, no centro. Veremos como vai se
desenrolar.
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